A palavra de ontem no Palavrinha foi ANAFE. Um daqueles objectos simples que carregam séculos de história — e o cheiro inconfundível de carvão em brasa.
Uma Palavra que Veio com os Mouros
"Anafe" vem do árabe al-nafakh — "o sopro", "o fole que aviva o fogo". A palavra chegou ao português durante o longo período de presença árabe na Península Ibérica (séculos VIII a XV), juntamente com dezenas de outras palavras relacionadas com a cozinha, a agricultura e a vida quotidiana: açúcar (al-sukkar), alface (al-khass), arroz (al-ruzz).
O anafe é um fogão portátil, geralmente de barro ou ferro fundido, que se alimenta de carvão vegetal. A sua forma é engenhosamente simples: uma câmara de combustão na base e uma grelha em cima. Leve, barato e eficiente, foi durante séculos o único fogão de que pescadores, pastores e viajantes dispunham.
O Coração da Cozinha Portuguesa
O anafe sobreviveu ao longo dos séculos não apesar da sua simplicidade, mas por causa dela. Nas aldeias do interior português, o anafe a carvão era o único meio de cozinhar até bem dentro do século XX. Mas foi sobretudo nas cidades, nas tasquinhas e nas tascas de peixe, que o anafe ganhou um papel icónico: o de assar sardinhas.
A sardinha assada no anafe é um ritual cultural tanto quanto culinário. O cheiro do carvão e da gordura da sardinha a pingar nas brasas é um dos aromas mais instantaneamente reconhecíveis de Portugal — associado às festas de Santo António em Lisboa, ao Verão, à comunidade. Pôr um anafe na janela, na rua, na varanda, é um acto social.
O anafe é a prova de que a palavra árabe mais antiga pode descrever o ritual mais português. Do sopro que aviva as brasas ao perfume que enche a rua, esta pequena palavra carrega o calor de oito séculos de história partilhada.