A palavra de ontem no Palavrinha foi FRADE. Uma palavra que moldou a identidade espiritual, intelectual e arquitectónica de Portugal durante séculos.
Irmão de Todos
"Frade" vem do latim frater (irmão), a mesma raiz que gerou fraternidade, frei (a forma abreviada usada como título, como em Frei Luís de Sousa), e o inglês friar. Um frade é um membro de uma ordem mendicante — franciscanos, dominicanos, agostinhos, carmelitas — que, ao contrário dos monges cloistrais, não permanecia fechado num mosteiro, mas saía para o mundo para pregar, ensinar e servir os pobres.
São Francisco de Assis, fundador dos franciscanos em 1209, quis precisamente isto: irmãos (não padres de carreira), que vivessem na pobreza, lado a lado com os mais humildes. A palavra "frade" transporta essa ideia de proximidade, de alguém que é seu igual — o seu irmão.
Os Frades que Fizeram Portugal
Poucos países têm uma história tão entrelaçada com as ordens religiosas como Portugal. Foram os frades agostinhos do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra — fundado em 1131 — que educaram os filhos da nobreza portuguesa durante gerações. Foram os dominicanos que fundaram a Universidade de Lisboa no século XIII. E foram os franciscanos que acompanharam Vasco da Gama na sua viagem à Índia em 1498, prontos a baptizar os povos encontrados.
O Mosteiro da Batalha: Uma Promessa em Pedra
A mais espectacular herança dos frades em Portugal é o Mosteiro da Batalha, mandado construir por D. João I como cumprimento de um voto feito antes da batalha de Aljubarrota (1385): se vencesse os castelhanos, ergueria um mosteiro. Os dominicanos que o habitaram durante séculos deixaram-nos a jóia do gótico manuelino português. Os Capelos Imperfeitos — a ala nunca terminada, aberta para o céu — são uma metáfora perfeita da condição humana: a grandiosidade da ambição confrontada com a inevitável imperfeição da sua realização.
A palavra "frade" pode evocar hoje uma figura do passado, o homem de hábito escuro que caminhava pelos claustros. Mas foi esse homem que copiou manuscritos, que ensinou a ler, que cuidou dos doentes, e que construiu, pedra a pedra, algumas das maiores obras de arte que Portugal tem para mostrar ao mundo.