A palavra de ontem no Palavrinha foi OBTER. Um verbo aparentemente comum, mas que é apenas a ponta de um iceberg: a raiz que o sustenta gerou algumas das palavras mais usadas da língua portuguesa.

Segurar para Si

"Obter" vem do latim obtinere, que se decompõe em ob- (em direção a, contra) e tenere (segurar, manter). Literalmente: "segurar algo para si", "apoderar-se de". O verbo latino tenere é um dos mais prolíficos da história do português — um tronco de que brotam dezenas de ramos:

  • Manter — do latim manu tenere, "segurar pela mão"
  • Conter — segurar junto, dentro
  • Deter — segurar para trás, parar
  • Reter — guardar, não deixar ir
  • Suster — suportar por baixo
  • Entreter — manter ocupado, entre outras coisas
  • Abster — manter-se longe de

Do Latim ao Posto Militar

A mesma raiz tenere deu origem a tenente — literalmente, "o que segura (o lugar de outro)". Na hierarquia militar, o tenente é o oficial que substitui o capitão na sua ausência, que "mantém" o comando. Em inglês, lieutenant vem do francês antigo e significa exatamente o mesmo: lieu (lugar) + tenant (o que segura). E tenant em inglês moderno significa "inquilino" — aquele que "segura" a terra arrendada.

Esta família de palavras revela como o latim organizou o mundo através da metáfora da mão que segura. Controlar, possuir, preservar — tudo isso é, na sua essência, um acto de segurar.

O Farnese Atlas, escultura romana de Atlas a segurar o globo celeste nos seus ombros, no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles.
O Farnese Atlas (c. 200 d.C.), no Museu Arqueológico de Nápoles. Atlas "sustém" (sub-tenere) o peso do mundo inteiro — a metáfora máxima do verbo tenere.

Da próxima vez que "obtiver" algo, lembre que está a realizar um gesto com dois mil anos de história: estender a mão e segurar o que deseja. Não muito diferente de Atlas, que segurou o céu inteiro — e nunca o largou.