A palavra de ontem no Palavrinha foi MORSA. Um animal que carrega nos seus longos dentes de marfim a memória das viagens ao fim do mundo — e que foi imortalizado num dos poemas mais estranhos e fascinantes da literatura inglesa.
Um Cavalo entre as Baleias
A palavra "morsa" chegou ao português por uma rota surpreendente. A sua origem está no nórdico antigo hrosshvalr — literalmente, "cavalo-baleia" (hross = cavalo, hvalr = baleia). Os povos nórdicos que primeiro encontraram estes animais ficaram impressionados com o seu tamanho e o seu focinho com bigodes que, de longe, lembrava um cavalo.
A palavra viajou depois para o russo como morzh, e deste para o francês morse e finalmente para o português morsa. É um exemplo fascinante de como as palavras viajam pelo mundo acompanhando os exploradores, os comerciantes e os marinheiros que nomeavam o que encontravam.
A Morsa e o Carpinteiro
Em 1871, Lewis Carroll publicou Alice do Outro Lado do Espelho, a sequela de Alice no País das Maravilhas. Um dos seus poemas mais famosos, recitado pelos Gémeos Tralalá e Tralálá, narra a história de "A Morsa e o Carpinteiro". Neste poema absurdo e inquietante, a Morsa e o Carpinteiro convencem um grupo de ostras ingénuas a seguí-los para um passeio... e depois devoram-nas todas.
"The time has come," the Walrus said, / "To talk of many things: / Of shoes — and ships — and sealing-wax — / Of cabbages — and kings..."
O poema é uma alegoria sobre o poder e a inocência: a Morsa discursa eloquentemente sobre a beleza do mundo enquanto come as ostras que a escutam. É um dos textos fundadores do nonsense literário inglês.
Do "cavalo-baleia" dos nórdicos ao personagem filosófico de Lewis Carroll, a morsa percorreu um caminho longo e improvável até chegar ao dicionário português. Como as ostras do poema, às vezes as melhores histórias são aquelas em que não prestámos atenção ao caminho até já ser tarde demais.