A palavra de ontem no Palavrinha foi FUNIL. Uma forma tão simples — mais larga em cima, mais estreita em baixo — que parece estar em todo o lado, da cozinha à química, da física à arquitectura.

Derramar com Precisão

"Funil" vem do latim fundibulum, derivado de fundere (derramar, verter, fundir). A mesma raiz latina deu origem a palavras que partilham a ideia de algo que flui: fundir (derreter um metal), fundar (criar uma base sólida vertendo, como no betão), infundir (verter para dentro, incutir uma ideia), e até confundir (literalmente, "derramar junto", misturar até não se perceber nada).

O Funil dos Alquimistas

O funil foi um dos instrumentos essenciais da alquimia medieval. Nos laboratórios sombrios dos sécs. XII a XV, os alquimistas usavam-no para transferir com precisão os seus líquidos preciosos e perigosos: mercúrio líquido, ácidos corrosivos, óleos essenciais. A forma cónica do funil aparece repetidamente nas gravuras da época — um instrumento humilde, mas absolutamente indispensável na busca da transmutação do chumbo em ouro.

As Chaminés do Titanic

No século XIX, o funil ganhou uma nova e grandiosa identidade: as chaminés cónicas dos navios a vapor. Chamadas funnels em inglês — a mesma palavra, a mesma origem —, estas estruturas tornaram-se o símbolo visual do poder industrial e da modernidade. Quanto mais chaminés, mais poderoso o navio.

O RMS Titanic tinha quatro chaminés. Apenas três eram funcionais; a quarta era decorativa, colocada para impressionar os passageiros e transmitir uma sensação de poder. Era marketing do século XX, disfarçado de funil. O Titanic afundou na madrugada de 15 de abril de 1912, mas as suas quatro chaminés tornaram-se a imagem mais icónica da era dos transatlânticos.

O RMS Titanic ao largo de Southampton em 1912, com as suas quatro chaminés cónicas bem visíveis.
O RMS Titanic, fotografado em 1912. As suas quatro chaminés — apenas três funcionais — tornaram-se o símbolo de uma era de ambição industrial desmedida.

Do alquimista que transferia mercúrio para o Titanic que impressionava o Atlântico, o funil é a história da humanidade a tentar controlar o que flui. E o que flui — seja água, vapor, ou tempo — raramente se deixa controlar para sempre.