A palavra de ontem no Palavrinha foi CHATO. Uma palavra com dois significados que parecem não ter nada a ver um com o outro — mas que revelam, afinal, uma mesma intuição profunda sobre o mundo.

Uma Superfície sem Relevo

"Chato" vem do grego platos (largo, plano), que passou para o latim como plattus. A mesma raiz está na origem de prato (recipiente plano), platô (superfície elevada e plana), plataforma, e até platina (o metal precioso, nomeado assim porque se encontrava em finas lâminas achatadas). Curiosidade: o filósofo grego Platão deve o seu nome a esta mesma raiz — o seu nome significa "ombros largos".

De Plano a Aborrecido

O salto semântico de "plano" para "aborrecido" é um dos mais fascinantes da língua portuguesa. Uma paisagem completamente plana — sem montes, vales ou acidentes de terreno — é, visualmente, monótona. A língua transportou esta metáfora geográfica para o domínio do carácter: uma pessoa "chata" é alguém sem relevo, sem picos de interesse, sem surpresas. A mesma lógica existe em outras línguas: em inglês, uma pessoa flat pode ser aborrecida; em francês, plat pode significar sem graça.

A Terra Chata que Deu a Arte mais Brilhante

Se há um país a que o adjectivo "chato" poderia ser aplicado literalmente, é os Países Baixos — Nederland, "terra baixa". Mais de um quarto do território holandês está abaixo do nível do mar. Durante séculos, os holandeses batalham contra as cheias com uma rede de diques, moinhos de vento e canais que é, ela própria, uma obra de arte de engenharia.

Paradoxalmente, foi precisamente desta "terra chata" que surgiu, no século XVII, uma das escolas de pintura mais brilhantes da história da arte: Rembrandt van Rijn, Johannes Vermeer, Frans Hals. O que a Holanda não tinha em altimetria, compensava em luz — aquela luz difusa, húmida, que atravessa as nuvens baixas e banha os interiores domésticos com uma qualidade quase mágica. Vermeer capturou-a como ninguém.

'A Leiteira' de Johannes Vermeer (c. 1658), mostrando uma mulher a verter leite junto a uma janela com luz natural.
'A Leiteira' de Johannes Vermeer (c. 1658). Na terra mais chata da Europa, Vermeer captou a luz mais bela da pintura ocidental.

"Chato" e brilhante não são opostos — a Holanda prova-o. Às vezes, é precisamente a ausência de relevo que nos obriga a olhar com mais atenção para o que está ao nosso nível, a descobrir a beleza no ordinário, no quotidiano. E isso, definitivamente, não é nada chato.