A palavra de ontem no Palavrinha foi CONTO. Uma palavra que, em português, faz algo raro: serve ao mesmo tempo para contar histórias e para contar dinheiro. E essa coincidência não é acidente.

Contar Números, Contar Histórias

"Conto" vem do latim computus (cálculo, cômputo), da mesma raiz de computare (calcular, contar). Em português, o verbo contar herdou os dois sentidos: contar números ("conta até dez") e contar histórias ("conta-me um conto"). Esta dualidade existe porque narrar era, na Antiguidade, uma forma de guardar informação — de "fazer a conta" dos eventos que importava lembrar.

Em Portugal, um "conto" foi também uma unidade monetária: um conto de réis (1 000 000 de réis) e, depois do século XX, um conto de escudos (1000 escudos). A palavra unia assim o narrar e o calcular numa só moeda.

Scheherazade e o Poder do Conto

O poder de vida ou morte do conto está encarnado em Scheherazade, a narradora das Mil e Uma Noites. O rei Shariar, traído pela esposa, jura matar cada nova noiva após a primeira noite. Scheherazade salva-se contando um conto por noite — e interrompendo-o sempre antes do fim, deixando o rei curioso demais para a matar. Durante 1001 noites, a narrativa é literalmente a sua única arma.

Giovanni Boccaccio utilizou a mesma estrutura no seu Decameron (1353): dez pessoas fogem da Peste Negra em Florença e, para passar o tempo, contam dez contos por dia durante dez dias. O conto como fuga, como preservação da humanidade face ao horror — esta é a sua força mais antiga.

Pintura representando Scheherazade a narrar ao rei Shariar, da série das Mil e Uma Noites.
Scheherazade e Shariar, de Ferdinando Bertinetti (c. 1880). A narradora que usou os contos como escudo contra a morte.

O "conto" é a mais humana das invenções: a capacidade de transformar a experiência em linguagem, a linguagem em narrativa, e a narrativa em algo que sobrevive ao narrador. Contar é, no fundo, a única forma de não sermos esquecidos.