A palavra de ontem no Palavrinha foi TÚNEL. Uma palavra que chegou ao português pelo caminho mais indirecto — e que esconde dentro de si a forma de um barril.
Um Barril Enterrado
"Túnel" entrou no português através do inglês tunnel e do francês tunnel, que por sua vez vem do francês antigo tonnel (barril, tonel). A ligação à forma do barril não é por acaso: os primeiros túneis escavados na rocha, com a sua secção circular ou em arco, lembravam visivelmente o interior de um tonel de madeira. Em português, esta mesma raiz deu-nos tonel (o barril grande) e tonelada (originalmente, o peso de um tonel cheio).
Os Romanos já Perfuravam Montanhas
A construção de túneis não é moderna. Os romanos escavaram alguns dos mais impressionantes da Antiguidade. O Túnel de Pausilipo, perto de Nápoles, foi construído no século I a.C. com cerca de 700 metros de comprimento e era suficientemente largo para duas carruagens passarem lado a lado. O poeta Séneca descreveu a travessia como "uma experiência horrível" — escura, cheia de fumo de tochas e barulho ensurdecedor.
O Sonho de Ligar a Europa
Durante séculos, o sonho de ligar a Inglaterra ao continente europeu por baixo da Mancha pareceu impossível. Napoleão chegou a propô-lo em 1802. Os engenheiros britânicos e franceses tentaram começar a escavar em 1882, mas o projeto foi abandonado por razões militares — a Inglaterra receava uma invasão por baixo do mar.
O Canal da Mancha (Eurotúnel) foi finalmente inaugurado em 1994, depois de seis anos de obras. Com 50 km de comprimento — dos quais 38 sob o fundo do mar —, é o segundo túnel mais longo do mundo. O sonho de Napoleão levou quase dois séculos a concretizar-se.
Há "luz ao fundo do túnel" — a expressão mais popular com esta palavra diz-nos que todo o percurso difícil tem uma saída. No caso do Canal da Mancha, a saída estava do outro lado do mar, e demorou duas centenas de anos a encontrar.