A palavra de ontem no Palavrinha foi GONGO. Um instrumento musical cujo nome chegou à língua portuguesa pelas mãos dos navegadores que foram os primeiros europeus a ouvi-lo nas ilhas do Oceano Índico.

Uma Palavra que Soa ao que Descreve

"Gongo" é uma palavra onomatopeica — imita o som surdo e ressonante do instrumento. Vem do malaio gong, e foi introduzida nas línguas europeias pelos portugueses no início do século XVI, quando os seus navios chegaram ao arquipélago das Ilhas da Sonda (actual Indonésia) e às costas de Java e Bali. As suas descrições de "gongos" de bronze foram as primeiras notícias deste instrumento a chegar à Europa.

O Gamelan: Uma Orquestra de Metal

O gongo é o instrumento central do gamelan, a orquestra tradicional de Java e Bali. Um conjunto de gamelan pode incluir dezenas de instrumentos de percussão — xilofones de bronze, sinos, tambores e vários tamanhos de gongos — tocados por músicos que aprendem o repertório de memória, sem partitura.

O compositor francês Claude Debussy ouviu um gamelan javanês na Exposição Universal de Paris de 1889 e ficou transformado. A experiência influenciou directamente o seu estilo musical — as escalas pentatónicas, as texturas sobrepostas, o modo como o som parece flutuar sem resolução clara. "A música do gamelan", escreveu ele, "contém todos os matizes, mesmo os que não têm nome."

Um grande gongo de bronze suspenso num suporte decorativo, instrumento central do gamelan asiático.
Um gongo de bronze — o instrumento que os navegadores portugueses encontraram nas ilhas do Índico e cujo nome trouxeram para a língua portuguesa.

O "gongo" é um lembrete de que o português é uma língua de viajantes. Cada vez que usamos esta palavra — seja para o instrumento musical, seja para a campainha do recreio escolar — estamos a usar um eco dos mares do século XVI, preservado no vocabulário de uma língua que foi ao fim do mundo e voltou com as palavras que lá encontrou.