A palavra de ontem no Palavrinha foi POETA. Uma palavra que, na sua origem grega, revela uma ambição que vai muito além do que hoje associamos à poesia.
O Fazedor
"Poeta" vem do grego poiētēs, derivado de poiein (fazer, criar). Um poeta era, literalmente, um fazedor — alguém que criava algo onde antes não havia nada. Aristóteles, na sua Poética, usava a palavra neste sentido amplo: o poeta não é apenas o que escreve versos, mas o que constrói uma narrativa coerente, um mundo com as suas próprias leis.
Esta raiz grega também nos deu poema (o que foi feito), poesia (a arte de fazer) e, numa evolução mais inesperada, a palavra inglesa onomatopoeia — literalmente "fazer nomes" a partir dos sons.
Camões: o Poeta que Fez Portugal
Se há um poeta que encarna a definição grega de poiētēs — alguém que literalmente criou algo — esse é Luís Vaz de Camões. N'Os Lusíadas (1572), Camões transformou as viagens de Vasco da Gama numa epopeia à altura da Ilíada de Homero, com deuses do Olimpo a intervirem nos mares portugueses e uma visão da História de Portugal como destino providencial.
Camões escreveu o poema durante décadas, muitas delas passadas nas colónias do Oriente — Goa, Macau, Moçambique — num exílio parcialmente voluntário, parcialmente forçado. Reza a lenda que salvou o manuscrito de um naufrágio nadando com ele acima da água. Quando finalmente publicou a obra, em Lisboa, tinha 47 anos e morreu dois anos depois, na pobreza.
"As armas e os barões assinalados / Que da ocidental praia lusitana / Por mares nunca de antes navegados / Passaram ainda além da Taprobana..."
Um "poeta" é um fazedor. Camões fez Portugal imortal em dez cantos e oito mil e oitocentos versos. E a língua portuguesa, a mesma que usamos no Palavrinha todos os dias, foi a matéria-prima com que ele construiu esse monumento.