A palavra de ontem no Palavrinha foi VIGIA. Uma palavra que em português carrega três sentidos distintos — a pessoa que vigia, o acto de vigiar, e a pequena janela circular de um navio — todos unidos pela mesma raiz latina de atenção e alerta.
A Vigília que Nunca Dorme
"Vigia" vem do latim vigilia, derivado de vigil (acordado, atento, em alerta). A mesma raiz deu ao português vigília (a noite de velório ou oração), vigilante, vigilância e o verbo vigiar. Em latim, os vigiles eram os guardas nocturnos de Roma — a primeira força policial da história da cidade, criada pelo imperador Augusto para combater incêndios e manter a ordem de noite.
O inglês vigilante e surveillance (do francês surveiller) partilham esta raiz latina, lembrando que a ideia de "velar" — estar acordado quando os outros dormem — atravessa as línguas e os séculos.
Os Olhos das Naus
Nas caravelas e naus portuguesas do século XV e XVI, o vigia era um dos postos mais críticos a bordo. Colocado no topo do mastro, numa plataforma circular chamada crow's nest (ninho do corvo), era ele quem gritava "Terra à vista!" quando a costa aparecia no horizonte. Era o vigia de Rodrigo de Triana que, na madrugada de 12 de outubro de 1492, avistou a América pela primeira vez — embora Cristóvão Colombo lhe tivesse roubado a recompensa prometida ao primeiro a ver terra.
A vigia — a janela circular — é também herança desta tradição naval. As pequenas aberturas redondas nos cascos dos navios receberam o nome do posto de observação: eram os "olhos" do navio, as aberturas através das quais se podia ver o mar de dentro para fora e vigiar o que se passava no exterior.
A "vigia" é uma palavra de responsabilidade. Vigiar é aceitar que, enquanto os outros descansam, alguém tem de estar acordado — atento ao horizonte, ao perigo, ao inesperado. Portugal construiu o seu império no mar com homens que souberam vigiar o que os outros ainda não tinham visto.