A palavra de ontem no Palavrinha foi ÊXODO. Uma das palavras com mais peso histórico e emocional de toda a língua portuguesa — porque "êxodo" não é apenas uma partida: é uma partida que muda o mundo.
A Saída que Fundou um Povo
"Êxodo" vem do grego exodos — ex (fora) + hodos (caminho). Literalmente: "o caminho para fora". O segundo livro da Bíblia chama-se Êxodo precisamente porque narra a saída do povo hebreu do Egipto sob a liderança de Moisés. Este evento — histórico ou mítico, os historiadores debatem — tornou-se o mito fundador do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. A fuga do Egipto, a travessia do Mar Vermelho, os quarenta anos no deserto: são as imagens arquétipas da libertação colectiva.
A mesma raiz grega hodos (caminho) deu-nos método (meta + hodos: o caminho para além), episódio (epi + hodos: o caminho adicional), e o inglês period (do grego periodos: o caminho em volta, o ciclo).
O Grande Êxodo Europeu para a América
Entre 1850 e 1914, cerca de 55 milhões de europeus emigraram para o continente americano — o maior êxodo voluntário da história humana. A fome, a pobreza e as guerras empurraram irlandeses, italianos, polacos, judeus asquenazitas e portugueses para os navios que os levavam a Nova Iorque, Buenos Aires e São Paulo.
Portugal contribuiu com mais de um milhão de emigrantes neste período — sobretudo dos Açores e do Minho. O Brasil e os Estados Unidos (especialmente Massachusetts e Rhode Island) tornaram-se os destinos de um êxodo que transformou para sempre a identidade portuguesa, criando diásporas que hoje somam mais pessoas do que a população de Portugal continental.
Um "êxodo" é sempre duas coisas ao mesmo tempo: um abandono e um recomeço. Os hebreus saíram do Egipto para encontrar a Terra Prometida. Os emigrantes portugueses saíram da fome para construir uma vida nova. A palavra carrega ambas as saudades — a da terra que se deixou e a da esperança que se procura.