A palavra de ontem no Palavrinha foi JOGAR. Uma palavra que, afinal, descreve precisamente o que fazemos todos os dias neste site — e que tem uma história filosófica muito mais profunda do que aparenta.

Do Latim ao Jogo de Palavras

"Jogar" vem do latim jocare (brincar, fazer graça, dizer piadas), derivado de jocus (brincadeira, chiste). A mesma raiz deu origem a jogo, jovial (o carácter alegre de quem gosta de brincadeiras) e ao inglês joke. Curiosamente, jocus era no latim clássico principalmente uma palavra de humor verbal — uma "graça", um "dito espirituoso" — antes de se alargar para cobrir todos os tipos de actividades lúdicas.

Homo Ludens: o Animal que Joga

Em 1938, o historiador holandês Johan Huizinga publicou Homo Ludens — "O Homem que Joga" — um dos livros mais influentes do século XX sobre a natureza humana. A tese central é provocatória: o jogo não é uma actividade menor derivada de necessidades mais sérias. É o contrário: a cultura humana — a lei, a guerra, a arte, a filosofia, a poesia — nasceu do jogo e mantém sempre uma dimensão lúdica.

"O jogo é mais velho que a cultura; pois a cultura, mesmo nas suas formas mais imperfeitas, pressupõe uma sociedade humana, e os animais não esperaram que os homens os ensinassem a jogar."

— Johan Huizinga, Homo Ludens (1938)
As peças de xadrez medievais de Lewis, esculpidas em marfim de morsa no século XII, descobertas na Escócia.
As peças de xadrez de Lewis (século XII), encontradas nas Hébridas Externas, Escócia. O xadrez nasceu na Índia, viajou pela Pérsia e pelos mundos árabe e mouro até chegar à Europa medieval.

O Palavrinha é um jogo de palavras — e como todos os jogos, tem regras, tem um limite de tentativas, tem o prazer da descoberta. Huizinga diria que quando jogamos o Palavrinha estamos a fazer exatamente o que o ser humano sempre fez: usar o jogo para explorar os limites da linguagem, do conhecimento e da nossa própria inteligência.