A palavra de ontem no Palavrinha foi ÚRANO. O nome do sétimo planeta do Sistema Solar carrega consigo a mitologia grega mais antiga, uma descoberta astronómica revolucionária e uma ligação inesperada à energia nuclear.
O Deus Primordial do Céu
Úrano vem do grego Ouranos (o Céu). Na mitologia grega, Úrano era o deus primordial que personificava o céu — e também o pai dos Titãs, dos Ciclopes e das Erínias. Foi castrado por seu filho Cronos (que ele mesmo encarcerava os outros filhos), e do seu sangue que caiu no mar nasceu Afrodite. A geração dos deuses olímpicos surgiu muito depois desta violência primordial.
O nome Ouranos está relacionado com a raiz indo-europeia que significa "chuva" ou "molhado" — o céu como a fonte da chuva que fertiliza a terra. A mesma raiz está em sânscrito Varuna, o deus cósmico védico das águas e da ordem.
O Planeta Descoberto com Telescópio
Úrano foi o primeiro planeta descoberto na era moderna, em 13 de março de 1781, pelo astrónomo britânico de origem alemã William Herschel. Até então, os cinco planetas visíveis a olho nu (Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno) eram conhecidos desde a Antiguidade. A descoberta de Úrano duplicou o tamanho conhecido do Sistema Solar e provou que havia mundos para além dos que os olhos humanos podiam alcançar.
Úrano é um planeta peculiar: gira de lado (o seu eixo de rotação está inclinado 98°), o que significa que os seus pólos recebem mais luz solar do que o equador durante décadas. As suas 27 luas têm nomes de personagens de Shakespeare e Alexander Pope — a única família de luas do sistema solar com nomenclatura literária, não mitológica.
Em 1789, oito anos após a descoberta do planeta, o químico alemão Martin Klaproth descobriu um novo elemento radioactivo e baptizou-o urânio em honra do recém-descoberto planeta. Desta forma, o nome do deus grego do céu acabou por dar o seu nome ao combustível da energia nuclear — uma cadeia etimológica que vai da mitologia à física moderna.