A palavra de ontem no Palavrinha foi FEDOR. Uma palavra desagradável por definição — mas com uma história fascinante sobre como o cheiro mau foi, paradoxalmente, um dos maiores motores do progresso urbano moderno.
Do Latim ao Nariz
"Fedor" vem do latim foetor (mau cheiro, podridão), derivado de foetere (cheirar mal). A mesma raiz deu origem a fétido (cheio de fedor) e ao inglês fetid. Em português, temos também fedorento e o verbo feder.
O olfacto é o sentido mais directamente ligado ao sistema límbico do cérebro — a região associada à memória emocional e às emoções primárias. Ao contrário da visão e da audição, os sinais olfactivos chegam ao cérebro emocional quase sem filtragem racional. É por isso que um cheiro pode transportar instantaneamente para uma memória de infância com uma intensidade que nenhuma fotografia consegue igualar — o fenómeno descrito por Marcel Proust quando a madeleine mergulhada em chá lhe revelou um volume inteiro de memórias perdidas.
O Grande Fedor de Londres, 1858
No verão de 1858, aconteceu em Londres um evento que a história regista como o Grande Fedor (The Great Stink). O calor excepcional daquele verão combinado com as toneladas de esgoto humano lançadas diariamente no Tamisa criou um cheiro tão insuportável que os membros do Parlamento abandonaram as salas de debate — que ficavam mesmo à beira do rio — e se recusaram a regressar.
O incidente forçou o que décadas de campanhas de saúde pública não tinham conseguido: o governo britânico financiou de imediato a construção de um sistema moderno de esgotos para Londres, projetado pelo engenheiro Joseph Bazalgette. A obra durou dez anos e construiu 1600 quilómetros de esgotos subterrâneos — a maior obra de infraestrutura do século XIX britânico. A mortalidade por cólera em Londres caiu imediatamente.
O "fedor" é muitas vezes o sinal de que algo está podre — e isso pode ser literalmente verdade (detritos orgânicos) ou metaforicamente (corrupção, injustiça). Em 1858, o fedor do Tamisa foi mais eficaz do que todos os discursos parlamentares para provocar uma mudança real. Às vezes, o nariz sabe mais do que a razão.