A palavra de ontem no Palavrinha foi NORMA. Uma palavra que é simultaneamente um conceito jurídico universal, uma ferramenta de carpinteiro e o nome de uma das óperas mais célebres da história da música.

O Esquadro do Carpinteiro

"Norma" vem do latim norma, que designava o esquadro — a ferramenta em forma de L que os carpinteiros e pedreiros usavam para verificar se os ângulos eram rectos. A norma garantia que as paredes ficassem direitas, que as colunas ficassem verticais, que os templos tivessem a forma correcta. É uma das mais belas metáforas da língua: aquilo que nos permite medir o direito e o torto acabou por se tornar a palavra para "regra", "padrão" e "lei".

A mesma raiz deu origem a normal (o que segue a norma), anormal (o que se desvia), normativo e, surpreendentemente, ao inglês enormous — de ex norma: "fora da norma", portanto extraordinariamente grande. Uma "enormidade" é literalmente algo que não cabe no esquadro.

Norma: A Sacerdotisa Druida de Bellini

Em 1831, o compositor siciliano Vincenzo Bellini estreou em Milão a ópera Norma — considerada pela maioria dos musicólogos a maior obra do bel canto italiano. Norma é uma sacerdotisa druida da Gália romana que, ao mesmo tempo que lidera a resistência contra os ocupantes, esconde dois filhos que teve secretamente com o general romano Pollione. Quando descoberta, em vez de denunciar o amante, Norma confessa o seu crime perante o povo e segue para a fogueira.

"Casta Diva, che inargenti / queste sacre antiche piante..."

— Bellini, Norma, Ato I (1831). A ária mais célebre da ópera, cantada por Norma à lua.
Maria Callas no papel-título de Norma em 1954, a soprano grega que tornou a ópera de Bellini imortal.
Maria Callas no papel de Norma (1954). A soprano grego-americana tornou-se inseparável deste papel — a sua interpretação de "Casta Diva" é considerada um dos picos da história da ópera.

Do esquadro do carpinteiro à lei do estado, do padrão técnico à tragédia operática: "norma" percorreu um caminho extraordinário. Toda a nossa ideia de ordem social — o que é justo, o que é normal, o que se pode e não se pode fazer — descende metaforicamente daquela ferramenta simples de madeira e ferro.