A palavra de ontem no Palavrinha foi NORMA. Uma palavra que é simultaneamente um conceito jurídico universal, uma ferramenta de carpinteiro e o nome de uma das óperas mais célebres da história da música.
O Esquadro do Carpinteiro
"Norma" vem do latim norma, que designava o esquadro — a ferramenta em forma de L que os carpinteiros e pedreiros usavam para verificar se os ângulos eram rectos. A norma garantia que as paredes ficassem direitas, que as colunas ficassem verticais, que os templos tivessem a forma correcta. É uma das mais belas metáforas da língua: aquilo que nos permite medir o direito e o torto acabou por se tornar a palavra para "regra", "padrão" e "lei".
A mesma raiz deu origem a normal (o que segue a norma), anormal (o que se desvia), normativo e, surpreendentemente, ao inglês enormous — de ex norma: "fora da norma", portanto extraordinariamente grande. Uma "enormidade" é literalmente algo que não cabe no esquadro.
Norma: A Sacerdotisa Druida de Bellini
Em 1831, o compositor siciliano Vincenzo Bellini estreou em Milão a ópera Norma — considerada pela maioria dos musicólogos a maior obra do bel canto italiano. Norma é uma sacerdotisa druida da Gália romana que, ao mesmo tempo que lidera a resistência contra os ocupantes, esconde dois filhos que teve secretamente com o general romano Pollione. Quando descoberta, em vez de denunciar o amante, Norma confessa o seu crime perante o povo e segue para a fogueira.
"Casta Diva, che inargenti / queste sacre antiche piante..."
Do esquadro do carpinteiro à lei do estado, do padrão técnico à tragédia operática: "norma" percorreu um caminho extraordinário. Toda a nossa ideia de ordem social — o que é justo, o que é normal, o que se pode e não se pode fazer — descende metaforicamente daquela ferramenta simples de madeira e ferro.