A palavra de ontem no Palavrinha foi PARVO. Um insulto corrente em português europeu que esconde uma origem latina inesperada — e uma reflexão surpreendente sobre quem, afinal, é o tolo.
De Pequeno a Tolo
"Parvo" vem do latim parvus, que significa simplesmente pequeno, insignificante, de pouco valor. Em latim clássico, parvus não tinha conotação negativa quanto à inteligência — era apenas "pequeno". Em português, a palavra percorreu um caminho semântico curioso: "insignificante" → "de pouco valor" → "de pouco juízo" → "tolo, pateta".
O mesmo processo aconteceu noutras línguas: em inglês, silly vinha do antigo inglês sælig (feliz, abençoado), que derivou para "inocente", depois "ingénuo" e por fim "tolo". E em português, papalvo — outro sinónimo de "parvo" — contém a mesma raiz: papa (papa, comida de bebé) + alvo (branco, puro) = alguém que ainda come comida de bebé e tem a mente em branco.
O Bobo da Corte: o Parvo que Sabia Tudo
Durante a Idade Média e o Renascimento, os reis e nobres europeus mantinham bobos da corte — figuras que se vestiam de maneira ridícula, faziam acrobacias e contavam piadas. Em português, estes bobos eram frequentemente chamados de "parvos" ou "tolos". Mas por detrás da máscara do parvo escondia-se muitas vezes um homem agudo e informado, que usava o privilégio da tolice aparente para dizer verdades que ninguém mais ousava dizer ao rei.
Shakespeare compreendeu isto perfeitamente: os seus bobos — Feste em Noite de Reis, o Bobo em Rei Lear — são os personagens mais inteligentes das suas peças. O Bobo de Lear é o único que diz ao rei que está a cometer um erro catastrófico. É tratado como parvo mas vê a verdade que os outros fingem não ver.
"Parvo" é hoje um insulto, mas a sua história sugere uma reflexão: quem é realmente o tolo? O que diz verdades inconvenientes usando o disfarce da brincadeira — ou o que, por prudência, prefere ficar calado? A etimologia de "parvo" sugere que ser "pequeno" pode, às vezes, significar ver o mundo com mais clareza.