A palavra de ontem no Palavrinha foi PARVO. Um insulto corrente em português europeu que esconde uma origem latina inesperada — e uma reflexão surpreendente sobre quem, afinal, é o tolo.

De Pequeno a Tolo

"Parvo" vem do latim parvus, que significa simplesmente pequeno, insignificante, de pouco valor. Em latim clássico, parvus não tinha conotação negativa quanto à inteligência — era apenas "pequeno". Em português, a palavra percorreu um caminho semântico curioso: "insignificante" → "de pouco valor" → "de pouco juízo" → "tolo, pateta".

O mesmo processo aconteceu noutras línguas: em inglês, silly vinha do antigo inglês sælig (feliz, abençoado), que derivou para "inocente", depois "ingénuo" e por fim "tolo". E em português, papalvo — outro sinónimo de "parvo" — contém a mesma raiz: papa (papa, comida de bebé) + alvo (branco, puro) = alguém que ainda come comida de bebé e tem a mente em branco.

O Bobo da Corte: o Parvo que Sabia Tudo

Durante a Idade Média e o Renascimento, os reis e nobres europeus mantinham bobos da corte — figuras que se vestiam de maneira ridícula, faziam acrobacias e contavam piadas. Em português, estes bobos eram frequentemente chamados de "parvos" ou "tolos". Mas por detrás da máscara do parvo escondia-se muitas vezes um homem agudo e informado, que usava o privilégio da tolice aparente para dizer verdades que ninguém mais ousava dizer ao rei.

Shakespeare compreendeu isto perfeitamente: os seus bobos — Feste em Noite de Reis, o Bobo em Rei Lear — são os personagens mais inteligentes das suas peças. O Bobo de Lear é o único que diz ao rei que está a cometer um erro catastrófico. É tratado como parvo mas vê a verdade que os outros fingem não ver.

Will Sommers, bobo do rei Henrique VIII de Inglaterra, retratado num manuscrito do século XVI.
Will Sommers, bobo do rei Henrique VIII (c. 1501–1559). Era considerado o único homem capaz de dizer ao rei verdades que os seus conselheiros mais prudentes evitavam.

"Parvo" é hoje um insulto, mas a sua história sugere uma reflexão: quem é realmente o tolo? O que diz verdades inconvenientes usando o disfarce da brincadeira — ou o que, por prudência, prefere ficar calado? A etimologia de "parvo" sugere que ser "pequeno" pode, às vezes, significar ver o mundo com mais clareza.