A palavra de ontem no Palavrinha foi BANHO. Um acto tão quotidiano que raramente pensamos nele — mas que tem uma história extraordinária de ascensões e quedas, de prazer e moralidade, de higiene e doença.
Do Grego ao Latim ao Português
"Banho" vem do latim balneum, por sua vez do grego balanion (banho público, casa de banhos). A mesma palavra deu ao inglês balneology (o estudo das termas medicinais) e ao italiano bagno. A raiz é provavelmente de origem pré-grega, ligada às civilizações mediterrânicas que existiam antes dos gregos.
As Termas Romanas: a Democracia da Limpeza
Em Roma, o banho era um acontecimento social. As grandes termas imperiais — as Termas de Caracala, as de Diocleciano — cabiam três a quatro mil pessoas em simultâneo, com piscinas de água fria (frigidarium), morna (tepidarium) e quente (caldarium), bibliotecas, ginásios, jardins e lojas. A entrada custava apenas um asse — o equivalente a um cêntimo — ou era gratuita nos dias de festa. Senadores e escravos tomavam banho no mesmo espaço, algo impensável noutros contextos sociais romanos.
Com a queda do Império Romano, a tradição das termas desapareceu na Europa Ocidental. A Igreja medieval desconfiava do banho colectivo como espaço de luxúria e pecado. O mito de que a Idade Média não tomava banho é exagerado — havia banhos domésticos e banhos públicos — mas o banho perdeu o estatuto de acto social diário que tinha em Roma.
No século XIX, os médicos descobriram que muitas das epidemias que varriam as cidades industriais eram transmitidas por água e falta de higiene. A construção de casas de banho públicas em bairros operários tornou-se uma política de saúde pública. O "banho" redescoberto como medicina completou assim o círculo que Roma tinha iniciado dois mil anos antes: lavar o corpo é um acto civilizacional.